SE eu TIVESSE ASAS

Estou certo de que estou errado sobre muitas coisas, embora não esteja certo exatamente sobre quais coisas estou errado.

22

de
outubro

Em Amnésia

Existem a Polinésia, a Indonésia e, pouca gente sabe, a Amnésia, um pequeno arquipélago no Pacífico cuja principal indústria é a fitinha para amarrar no dedo e lembrar o que não se quer esquecer, que os amnesianos costumam usar nos dez dedos da mão, inutilmente, pois nunca se lembram por que estão usando. Quem acha que o Brasil é o país mais sem memória do mundo não conhece a Amnésia, que inclusive se classificou para as finais da última Copa do Mundo mas esqueceu de ir, ao contrário do Brasil que foi mas esqueceu o futebol.

 

A profissão mais valorizada na Amnésia é a de historiador-romancista. Como ninguém se lembra de nada por mais de 15 minutos os historiadores inventaram uma história grandiosa para o país que inclui até uma guerra contra os Estados Unidos, que ganharam, vários reis malucos e ditadores divertidos e heróis nacionais como o inventor do spray nasal e um amante da Rita Hayworth, além de muitos recordistas olímpicos e cinco vitórias na Copa do Mundo. A capital de Amnésia, cujo nome ninguém se lembra, tem dezenas de estátuas e monumentos homenageando atletas, generais, cientistas e filósofos que nunca existiram mas estão nos livros de história. Segundo os historiadores, Amnésia já construiu sua bomba atômica, só esqueceu onde a botou.

 

Amnésia também é conhecida como exportadora de garçons. Quase todos os imigrantes de Amnésia que você encontra no mundo são garçons. É fácil reconhecê-los porque são os que esquecem o seu pedido. Em Amnésia isto não era um problema porque quem pedia sempre esquecia o que tinha pedido e aceitava o que o garçom trouxesse, mas em outros países garçons amnesianos têm ouvido alguns desaforos. Que logo esquecem.

 

Em Amnésia não há adultério. Ou há, mas os traídos esquecem a traição com a mesma rapidez com que os adúlteros esquecem seu juramento de jamais repeti-la, e volta a paz. Uma velha tradição do país - segundo os historiadores - é o duelo pela honra. Quando os desafetos se encontram para resolver tudo com espada ou pistola ninguém se lembra mais da causa do duelo, e apesar da tradição nenhum duelo jamais foi realizado em Amnésia. Pelo menos que alguém se lembre.

 

Os políticos em Amnésia são todos corruptos. Os escândalos se repetem mas as comissões parlamentares reunidas para investigá-los começam, invariavelmente, com seu presidente perguntando “Alguém se lembra por que estamos reunidos aqui?” Como ninguém se lembra as comissões são desfeitas, até o escândalo seguinte, quando ocorre a mesma coisa. Já houve a sugestão de se formar as comissões antes dos escândalos, que são previsíveis, pois acontecem com a mesma regularidade com que são esquecidos. A sugestão foi aceita e logo esquecida. Há pouca renovação entre dirigentes e parlamentares amnesianos porque o público esquece o que eles fizeram e os reelegem. Políticos que estão no poder há anos fazem campanha com o slogan “Finalmente uma cara nova”, em todas as eleições e levam o voto do eleitor insatisfeito mesmo que não lembre bem com o quê. Leis são promulgadas, esquecidas, nunca exercidas e muitas vezes promulgadas de novo - e esquecidas de novo. Em Amnésia os computadores têm memória, mas ninguém se lembra pra que serve.

 

É bom viver no pequeno arquipélago de Amnésia, onde ninguém cobra dívidas, guarda rancor ou tem o que contar ao psicanalista, a não ser que invente. Os historiadores-romancistas providenciam as lembranças que ninguém tem. Se Amnésia se classificou para as finais da Copa - pelo menos tem quase certeza que se classificou, faz tanto tempo - e esqueceu de ir, por que não botar na história que foi, e ganhou? Num país sem memória onde tudo é faz-de-conta, o passado pode ser o que a gente escolher.

 

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Hoje meio que encerro as postagens pela semana. Como havia falado outro dia, vou pra São Paulo logo mais, e no fim de semana, pra Arraial. Aproveitem, pois três textos novos, em três dias seguidos, virou raridade neste blog. Ah, falando em blog, a explosão de novos blogs não param. O Lindão também criou um, um tanto quanto estiloso. Já que você perdeu tempo aqui, pode tentar achá-lo no sEm pErder O estiLo.

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Não, não fui eu quem escreveu ‘Em Amnésia’. Obrigado por pensar que eu tenho essa capacidade, mas não tenho. O texto é do Verissimo, que é o meu cronista predileto. Postei o texto porque ele é a conclusão dele é algo que há algum tempo está na minha cabeça (lógico que sem aquele lance viagem do ‘Efeito Borboleta’). Ter o passado que a gente queira talvez seja a melhor opção…

 

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Bjomeliga!

 

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1 Comentário »

  1. Comentário por Paula Desireé — 26 de outubro de 2008 (13:04)

    Nossa!! To precisando de um lugar desse!!
    Bem que podia existir,seria tudo mais fácil.
    Saudades de você Elvino.

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